Intolerância ao glúten: mito ou verdade?

Ele vem sendo cotado como principal responsável por todo tipo de tormento – dos quilos extras à enxaqueca. Só que boa parte dessa história é uma bela farsa.

O universo da nutrição tende ao maniqueísmo. Enquanto alguns alimentos são alçados à fama em um piscar de olhos – como é o caso do óleo de coco -, outros são mandados ao limbo em um zás-trás. Às vezes, vale registrar, sem motivo cientificamente correto. É o caso do glúten, uma proteína presente em todos os itens que levam trigo, centeio, aveia, malte e cevada.

A substância só não é tolerada por uma parcela da população que tem a doença celíaca. Estamos falando de quase 1 milhão de brasileiros. E, para atendê-los – que bom -, a indústria aumentou a oferta de produtos isentos dessa proteína. Ocorre que boa parte dos outros 194 milhões de consumidores do país passaram a imaginar que, se havia comida destacando o “sem glúten” no rótulo, isso seria indicador de que o tal glúten faria mal. Interpretação errônea no caso. E há sempre quem se aproveite da situação. Exemplo: prometendo que a barriga irá secar se você tirar o bendito ingrediente da mesa. “É um grande mito”, dispara a gastroenterologista Lorete Kotze, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. “É claro que, se uma pessoa abdicar dos carboidratos, sejam eles fontes ou não de glúten, ela irá emagrecer. Agora, se substituir itens com glúten por receitas com farinha de arroz, tal qual um celíaco faria, certamente não notará nenhuma diferença no peso.”

Também há uma parcela cada vez maior de indivíduos que culpam a proteína por vários desconfortos, como diarreia, enxaqueca, abdômen estufado, gases e por aí vai. Assim, julgando-se sensível ao glúten, não pensa duas vezes antes de tirá-la do cardápio. De tão comum, a situação até foi alvo de um estudo realizado na Universidade de Pavia, na Itália, publicado recentemente no periódico científico Annals of Internal Medicine.

Para os pesquisadores, boa parte dessa gente está, digamos assim, chovendo no molhado. Afinal, há outras substâncias presentes em alimentos recheados de glúten que podem ser as verdadeiras responsáveis por reações adversas. Sem falar no efeito nocebo, ou seja, quando já se come uma pratada de macarrão esperando passar mal.

Segundo a gastroenterologista Vera Sdepanian, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e uma das maiores especialistas em doença celíaca no Brasil, a história da sensibilidade ao nutriente é mesmo bem delicada, como apontaram os cientistas europeus. “Ela existe, mas a forma de flagrá-la ainda não está muito definida. Então, é crucial procurar um especialista”, diz a médica. “Até porque, em primeiro lugar, é preciso descartar o diagnóstico de doença celíaca. E cortar o glúten da dieta antes disso chega a atrapalhar essa investigação”, avisa.

Quem define o quadro é o gastroenterologista – no caso das crianças, o gastropediatra -, que usa como referência um exame de sangue e uma biópsia do intestino. Só depois de seu parecer é que as mudanças na alimentação se tornam convenientes. “Se for comprovado que o paciente não é portador de doença celíaca, mas apresenta características de sensibilidade ao glúten, aí sim é recomendado excluí-lo da dieta na tentativa de checar se os sintomas desconfortáveis são amenizados”, conta a nutricionista Renata Zandonadi, da Universidade de Brasília.

E se eu for celíaco?

O ideal é que a doença não demore a ser identificada. É que o diagnóstico tardio pode levar a uma enxurrada de complicações. Uma delas é a desnutrição, já que o intestino atrofiado deixa de absorver nutrientes importantes – como consequência, há aumento no risco de osteoporose por causa da falta de cálcio, perigo de ter anemia por ausência de ferro e assim por diante. “É possível que ocorram problemas mais sérios, como doença refratária e surgimento de um tumor do tipo linfoma”, completa Celso Mirra de Paula e Silva, da Federação Brasileira de Gastroenterologia.

Portanto, não subestime os sintomas, que vão de gases a enxaqueca, emagrecimento e fraqueza. E, uma vez que a doença é constatada, não tem conversa: é preciso dar adeus definitivo à tão falada proteína para restaurar as condições intestinais. “Isso significa não só apostar em alimentos alternativos, caso daqueles à base de arroz, milho e mandioca, como evitar produtos de origem desconhecida, que podem ter sido contaminados com glúten”, alerta a nutricionista Angélica Aparecida Maurício, professora da Universidade Federal do Paraná. “É que ele é capaz de permanecer em suspensão no ar por cerca de oito horas.” Também é bom ficar longe da louça usada por quem não tem o problema, já que a proteína deixa vestígios nos utensílios domésticos. Nessa situação – e só nela -, fugir do glúten é algo realmente sério.


Quem não pode nunca: o paciente celíaco

Em condições normais, o intestino apresenta vilosidades, passagens responsáveis por absorver nutrientes. Nos celíacos, o glúten agride e danifica essas estruturas. Como consequência, o aproveitamento dos nutrientes é prejudicado, abrindo caminho para carências severas.

 

Sinais que merecem atenção
Várias encrencas podem ser sintomas da doença celíaca e merecem uma investigação

Diarreia

Distensão abdominal

Anemia

Emagrecimento

Baixa estatura

Inchaço nas juntas

Fraqueza

Osteoporose

Perda de equilíbrio

Puberdade tardia

 

por Thaís Manarini | design Fernanda Didini e Ana Paula Megda.

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